09/08/2019  às 12hs57 - Atualizado em 09/08/2019  às 13hs26

Geral

A busca por justiça após negligência de presídio com o caso de meningite

Família de Marcos Borges de Araújo denuncia equipe do Presídio Santa Augusta por negligência no atendimento de saúde ao jovem.


Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal


A sensação de impotência pela morte e pelo descaso é o sentimento que acompanhará Fabiana Pereira Borges, moradora de Lauro Müller, na busca por justiça. O filho dela, Marcos Borges de Araújo, de apenas 22 anos, morreu no sábado, dia 27 de julho, vítima de meningite bacteriana. Ele cumpria pena por tráfico de drogas no Presídio Santa Augusta, em Criciúma, desde o dia 7 de junho.


A direção do presídio alegou que os sintomas apareceram na segunda-feira, 22, cinco dias antes da morte. Contudo, a família garante que, em visita ao jovem uma semana antes do falecimento, no dia 20, ele já estava com febre alta e sentindo fortes dores de cabeça. Os sintomas, segundo Marcos relatou ao pai naquela ocasião, haviam começa por volta de três dias antes da data da visita. Ou seja, cinco dias antes do que alega a direção do presídio e dez dias antes da morte do jovem.


Por isso, a sensação de impotência da família diante do descaso. Apenas quando as convulsões iniciaram é que ele foi levado ao Hospital São José, onde foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Segundo Fabiana, o filho, os colegas de cela e o pai de Marcos chegaram a pedir atendimento a ele, mas sem sucesso. “O pai dele foi no sábado. Ele abraçou o Marcos e percebeu que estava pelando de febre. A claridade chegava a doer. Ele tremia. O pai perguntou o que estava acontecendo e ele respondeu que já estava mal há mais de três dias, com dor de cabeça e febre. Marcos pediu por saúde e eles negaram. O tratamento lá no presídio desumano”, relatou.


“Então o pai ofereceu para levar no médico ou para comprar remédio e a resposta foi que ele não precisava se preocupar, que eles tinham médico lá e sabiam o que estavam fazendo. No domingo, ele se batia muito, com febre. Ele sofreu bastante. Foi socorrido com convulsão apenas na segunda-feira e só me avisaram que meu filho estava internado no início da tarde de terça. Mas ele já chegou em coma e não melhorou mais. Os companheiros de cela dele batiam nas grades pedindo por assistência. Eles disseram que quando fazem isso é porque a situação é grave. Mas mandavam eles ficarem quietos. O que não me conforma é a demora, o descaso. No estado de saúde que ele foi levado ao hospital, não tinha chance de reverter. Não nos deram mais esperança. Ele teve morte cerebral”, lamentou.


Na mesma semana em que a morte foi registrada, o Presídio Santa Augusta chegou à maior lotação da sua história, com mais de 1 mil presos, quando a capacidade oficial é de 696. Além de Marcos, outros 14 detentos dividiam a mesma cela. “Ele me disse que aquele lugar não era para ser humano nenhum ficar. Se fosse uma pessoa que já tivesse malandragem aqui fora, até conseguiria sobreviver. No bilhete que ele escreveu para mim, ele pedia por um advogado, porque não aguentava mais ficar lá dentro, e não aguentou mesmo. Ele contou que o problema não era convívio com os detentos na cela, porque havia companheirismo entre eles, mas sim o tratamento por parte dos que trabalham lá”, relatou. “Quem está preso não pode falar sobre isso, porque são penalizados, com castigo e agressões. O mesmo acontece com os apenados caso algum familiar denuncie. São tratados de forma desumana”, emendou.



“Ele sonhava em sair de lá e dar estudos para o irmão”


Segundo a mãe de Marcos, ele foi morar sozinho em Içara há por volta de um ano. O jovem trabalhava com o pai, como ajudante de pedreiro. “Ele não tinha nenhum histórico no passado, nunca incomodou. Por um erro que ele cometeu, foi parar lá e saiu sem vida”, disse. Conforme Fabiana, o julgamento dele seria na quinta-feira, dia 25, dois dias antes de sua morte. Por não ter antecedentes, ela acredita que ele poderia inclusive responder em liberdade.


Fabiana é cuidadora de idosos e mora com Guilherme, de 10 anos, irmão mais novo de Marcos. Ela conta que fazia planos para se mudar para mais próximo do filho. Segundo ela, Marcos nunca deu motivos para que ela se preocupasse. “Ele sonhava em sair de lá e dar estudos para o irmão. Fazia muitos planos. Quando eu fui visita-lo, ele perguntou como o Guilherme estava indo na escola, que era para continuar tirando nota 10 porque ele iria trabalhar para dar estudo para ele. O menino é muito inteligente e sonha em ser dentista. Sempre pensou no irmão antes dele. Era tudo para ele. Quem conheceu o Marcos, não acredita que ele tinha ido parar lá. Nunca se envolveu em briga, nunca incomodou. Era brincalhão, gostava de crianças, de jogar futebol, baralho e pescar”, relembrou.


A equipe de reportagem do Notícias JH tentou, por diversas oportunidades, contato com a direção do Presídio Santa Augusta, porém, não houve interesse em se manifestar.


09/08/2019  às 12hs57