29/11/2017  às 09hs36

Esportes

A morte do Mahicon Librelato em primeira pessoa


Foto: Acervo Antonio Colossi/Engeplus

Foto: Acervo Antonio Colossi/Engeplus

Era começo da madrugada. A redação estava vazia. O expediente havia terminado não fazia muito mas aquela preguiça de quem gosta de onde trabalha me mantinha por ali, entre as velhas mesas verdes da Rádio Guaíba. A noite estava abafada e não demoraria a descer as escadas e tomar o rumo de casa. Eis que o toque de um telefone faz mudar os planos.

Aquele telefone soava solitário entre as mesas da sala parcialmente escura. Fui até ele, crendo que nada demais estava por vir. Mas estava. Do outro lado, o André Magalhães, um rapaz que comentava sobre seguros na Guaíba. Estava em férias em Florianópolis. Havia acabado de passar pela Beira Mar Norte, lugar que eu nem conhecia mas, mal sabia, freqüentaria muito nos anos futuros. Havia um carro capotado na baía. E mortos. E um deles era o Mahicon. “O Librelato morreu”. A notícia contada pelo assustado André me impactou. “O que fazer?”. Estava eu portador da triste notícia. Morreu o Mahicon Librelato.

Não demorou e já estava eu em contato com um dos policiais militares catarinenses que atendeu a ocorrência. O mesmo foi ao ar comigo, 1h22min da madrugada, e desfiou todos os detalhes. A essa altura a programação da “Música da Guaíba” já estava devidamente derrubada, por iniciativa própria, e o dial sereno da noite era sacudido pela grave informação. Nervoso, cometi um erro de português pelo qual me torturo até hoje ao divulgar a notícia. Era eu um jovem de 22 anos em busca de espaço no acirradíssimo mercado da crônica esportiva de Porto Alegre. E tinha uma missão difícil a cumprir. Lá fui eu. Dada a notícia, entrevistado o PM, óbvio que o horário ainda era de pouca repercussão. Era necessário ir atrás das fontes.

Tomei a liberdade, madrugada adentro, de apanhar o telefone e ligar para Fernando Carvalho, o advogado que fez história como presidente do Internacional. Estava ele terminando o primeiro e atordoante ano da gestão que depois se tornaria a mais vitoriosa, alcançando a glória mundial dali a quatro temporadas. O acordei. E o avisei da tragédia. A partir daí, um turbilhão do qual pouco recordo nos detalhes, a não ser o resumo de uma noite mal dormida e o pesar que gradualmente vai batendo por um jovem de 21 anos – um ano mais novo que eu na época – e que jogava muita bola. 

Aquele primeiro ano do Mahicon em Porto Alegre coincidia quase com a minha chegada, que havia ocorrido meses antes na capital gaúcha. E ele já estava nas graças da torcida colorada. Estava em alta. Havia salvo o Inter de um rebaixamento que só viria a ocorrer 14 anos depois, agora revertido dentro de campo.

Quis o destino que, quinze anos depois, estivesse eu aqui na Criciúma onde ele surgiu para o mundo da bola e escrevendo sobre a notícia a qual fui o primeiro radialista a fatalmente divulgar, da morte tão prematura de um talento que, tivesse a vida da bola seguido seu curso natural, teria obviamente vestido a camisa da Seleção Brasileira na Alemanha em 2006 e da África do Sul em 2010. Tomara não tivesse tomado parte da tragédia de 2014 mas não, trágico mesmo foi se perder uma vida como a dele tão cedo.

Hoje, os 15 anos da notícia que ninguém quer divulgar, e coube a mim aquela missão. Coincidências que não param por aí. Hoje falo na mesma Rádio Eldorado onde ele tantas vezes deu entrevistas e na qual o Jotha Del Fabro o celebrizou, narrando com a sua vibração peculiar os gols do “filho da dona Maurina”, mas essas são lembranças que compartilhamos de novo agora.

*Editor do Portal Engeplus e coordenador de esportes da Rádio Eldorado. Era apresentador e repórter da Rádio Guaíba de Porto Alegre à época da morte de Mahicon Librelato, há exatos 15 anos. Foi o primeiro radialista a noticiar a morte do jogador para o Rio Grande do Sul.

 

Com informações do site Engeplus


29/11/2017  às 09hs36