05/04/2019  às 14hs20 - Atualizado em 05/04/2019  às 14hs33

Economia

Alimentos orgânicos: cultivo e consumo em harmonia com a natureza

Preocupação cada vez maior com a saúde humana, animal e do meio ambiente aumenta o consumo de orgânicos e impulsiona o setor na região.


Família produz em cinco hectares de terra na comunidade de Furninhas, em Orleans - Foto: Ketully Beltrame

Família produz em cinco hectares de terra na comunidade de Furninhas, em Orleans - Foto: Ketully Beltrame


Saúde, qualidade de vida, sustentabilidade, preservação do meio ambiente. A agricultura orgânica é muito mais que um sistema de produção agrícola. Tanto para quem cultiva quanto para quem consome torna-se um estilo de vida. Cada vez mais pessoas têm tomado consciência, elevando, dessa forma, a procura por alimentos isentos de agrotóxicos prejudiciais à saúde humana, animal e do meio ambiente.


Devido à grande demanda existente, o casal Luiz Carlos Antonello Salvalagio e Suéle Selinger Boger Salvalagio aumentaram, em pouco mais de quatro anos, de 100 metros quadrados para cinco hectares de área plantada. Em 2014, eles saíram de seus empregos para abrir um negócio próprio. Em busca por algo com que se identificassem, o casal optou por abrir uma feira, dando início à Sabores do Campo, em Criciúma.


“Inicialmente, não comercializávamos produtos orgânicos, mas as pessoas perguntavam se tínhamos. Como a mãe plantava alface no sítio, o que ela não consumia nós passamos a levar para vender. Os clientes notaram a diferença e a procura foi crescendo. Então percebemos que era isso que os consumidores queriam. Passamos a plantar na horta em casa e no sítio da mãe. Desde então, fomos ampliando a área e também a variedade dessa produção”, contou Carlos.



Além dos pais dele, outras duas pessoas atuam na produção, que fica em um sítio localizado na comunidade de Furninhas, interior de Orleans. No local, são cultivados alface, cebolinha, salsinha, alho poró, tomate, rúcula, beterraba, brócolis, pimentão, vagem, couve flor, chuchu, cenoura, feijão, moranga, abobrinha, batata doce, aipim, limão, laranja, mamão, banana e entre outros alimentos. Em dezembro do último ano, eles receberam o Certificado de Conformidade Orgânica.


De acordo com Carlos, apesar dos inúmeros benefícios proporcionados pelos alimentos orgânicos, o custo pode ser um entrave para quem ainda não os consume. Isso ocorre porque a produção demanda mais tempo e também mão de obra. “Trabalhamos muito com a qualidade de solo, é necessário renovar o solo para poder trabalhar com a agricultura orgânica. Assim, não prejudica o meio ambiente, pois respeita o ciclo natural. Plantamos o tomate em setembro e colhemos em dezembro, por exemplo. Desde de janeiro, plantamos adubação verde na estufa e voltará a cultivar tomate somente a partir da metade deste ano. Então aquele espaço fica seis meses sem dar renda, além de todo o processo exigir mais cuidado manual. É por isso que o custo do produto é maior”, explicou.


Na Sabores do Campo, por sua vez, atuam sete colaboradores com o casal proprietário. Os empreendedores se especializaram e ampliaram a atuação. Além da feira, Suéle virou chef de culinária funcional e prepara produtos voltados à panificação e doces low carb, presando sempre pela qualidade dos ingredientes dos lanches preparados por ela, que são servidos no local ou entregues para empresas e consumidores final. “Dedicar muito amor e energia no que faz” foi um dos segredos apontados por eles para que a produção rendesse bons frutos.


“Basicamente, fornecemos saúde”



Para Joana Bett, a sensação é a mesma. Ela é agrônoma por formação e idealizadora da marca Orgânicos São Matheus, que produz na fazenda localizada na comunidade de Rio do Rastro, em Lauro Müller. “Gosto muito da ideia de colocar alimentos saudáveis e livres de resíduos na mesa das pessoas. Se uma criança comer um morango que eu produzo, sei que não há nenhuma chance de ela estar ingerindo produtos nocivos. Então, muito além da geração de renda, eu encaro a produção de orgânicos como uma filosofia de vida. Basicamente, fornecemos saúde”, declarou.


Ela conta que a família sempre produziu de forma orgânica para consumo próprio. “Na verdade, o agrotóxico que foi novidade nas lavouras da região, surgiu na década de 1970. Meu pai usou nas lavouras de milho, mas na produção para a família nunca foi colocado nada de agrotóxicos nem fertilizantes sintéticos”. Ela começou as entregas de orgânicos em 2017, mas parou durante um ano e retomei em 2019. “Fui morar com meu marido no Rio Grande do Sul, mas não me adaptei e resolvi retornar e trabalhar com o que eu sempre amei, que é a produção de alimentos seguros”.


Joana e sua mãe produzem hortaliças em geral, aipim, batata doce e algumas frutas sazonais, como o figo, a laranja e, agora, o carro-chefe: o morango. “Produzo morango desde 2016, mas que estou renovando as estruturas e mudas este ano. Pretendo encaixar na venda regional nos mais variados estabelecimentos que se mostrarem interessados. O morango começará a produzir daqui uns dois meses. Plantei agora em março 2 mil mudas e, em julho, irei plantar mais 8 mil. Outro produto que quero explorar bastante é o agrião, que cresce naturalmente nas nossas águas cristalinas que vem direto do costão da serra”. 


A ideia é sempre ampliar a variedade de produtos, visando atender aos pedidos dos clientes e às mais diversas preferências. O negócio funciona como uma espécie de “delivery de orgânicos”. Ela entrega os produtos semanalmente, principalmente nas residências, em Lauro Müller. Os pedidos são feitos pelo aplicativo WhatsApp. A intenção é expandir a venda para moradores de Orleans. Na Orgânicos São Mateus, a ideia também surgiu devido à procura dos clientes. “Decidi começar a comercializar porque temos mercado e minha mãe sempre vendeu o excedente da produção. Muitas pessoas em Lauro Müller já conheciam nossos produtos e sua qualidade, então só comecei a divulgar mais na internet e os pedidos vieram”.


“Sempre houve maneiras de não utilizar agrotóxicos na produção”



O agrônomo Luciano de Melo Philippi explica que o alimento orgânico é todo o produto, animal ou vegetal, obtido sem a utilização de produtos químicos ou de hormônios sintéticos que favoreçam o seu crescimento de forma não natural. Entre os benefícios, ele cita: mais saúde, sabor, nutrientes, biodiversidade, bem-estar no campo e preservação ambiental. O uso de agrotóxicos visa possibilitar a grande produção, evitando, de forma não natural, pragas e doenças nas plantações. Em contrapartida, causa efeitos nocivos ao meio ambiente, tais como a degradação e contaminação dos solos e da água e também a extinção de espécies fundamentais para o equilíbrio do ecossistema.


“Sempre houve maneira de não utilizar agrotóxicos na produção. Porém, o mercado produtivo tem seus interesses econômicos de vender tecnologias, que usam processos não naturais. As tecnologias limpas e sustentáveis não interessam ao sistema e é só por isso que não se produz sem o uso desses insumos químicos, entre eles, os venenos. As ciências agronômicas sustentáveis existem desde sempre e são sistemas inteligentes e integrados com processos naturais, com leis da natureza. É necessário voltarmos a compreendê-las para pensarmos produções alimentares saudáveis a todos os seres vivos envolvidos”, defendeu.


A produtora Joana explica que, para que o cultivo tenha êxito, se faz necessário utilizar dos recursos naturais existes. “Utilizamos diversas técnicas. Precisamos ter bastante cuidado com a planta e mantê-la bem nutrida para não desenvolver doenças. Além disso, são utilizadas caldas repelentes a base de plantas, principalmente. Eu utilizo também produtos que são formulados a partir de inimigos naturais, como fungos e insetos, que fazem o controle biológico destas pragas que podem estar localizadas nas lavouras. Então esses organismos controlam outros organismos nocivos. Uma das principais bases da agroecologia é a diversificação de culturas. Não é possível produzir uma monocultura e querer que não haja problema. A gente precisa criar uma comunidade de plantas em que umas protegem as outras, formando repelências e maneiras de proteção contra insetos e doenças, de acordo com as suas interações”, detalhou.


Influência do agrotóxico na saúde


Durante o "Seminário sobre Agrotóxicos nos Alimentos, na Água e na Saúde", evento promovido pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) na última semana, o médico especialista em Laboratório de Função Pulmonar, Pablo Moritz, falou sobre o impacto e os danos causados pelos agrotóxicos na saúde humana. Segundo ele, a toxicidade causada pelos agrotóxicos não é específica, uma vez que um agrotóxico, em contato com outros, pode se apresentar de diversas maneiras, causando alterações no metabolismo, nos pulmões, na reprodução e nos hormônios.


Jackson Rogerio Barbosa, do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST) da UFMT, garantiu que é impossível se falar em saúde quando o assunto é agrotóxico. Uma pesquisa realizada pelo Núcleo mostrou que, em 2017, cada pessoa consumiu 7,3 litros de agrotóxicos. No estado de Mato Grosso, 95% das nascentes de água estão no meio de plantações de soja, algodão e milho. Além disso, pesquisas ainda apontaram que a chuva apresenta presença de agrotóxicos no estado.


Já a médica Silvia Regina Brandalise afirmou que as preocupações com os agrotóxicos vão além do contato direto com o produto. Segundo dados apresentados, a influência dos agrotóxicos surge mesmo antes do nascimento das crianças. Estudos realizados na Dinamarca e Itália, um de 47 anos de duração e outro de 12, respectivamente, comprovaram que locais com altos índices contaminantes resultam em altos índices de doenças como leucemia e tumores no cérebro. No estado de São Paulo, 7% das mortes de crianças de até cinco anos são causadas por má formação congênita.


Redação Notícias JH


05/04/2019  às 14hs20