05/07/2019  às 09hs31

Saúde

Casos de brucelose deixam autoridades e produtores em alerta em Lauro Müller e região

Doença pode ocasionar aborto e queda dos rebanhos e da produção de leite, gerando perdas de produtividade no campo; humanos também podem contrair a brucelose.


Foto: ASCOM PMLM

Foto: ASCOM PMLM


A Administração Municipal de Lauro Müller, através da Secretaria de Agricultura, concentra ações em alerta aos produtores de leite do município sobre os riscos, contágio e medidas sanitárias para combater a brucelose no plantel leiteiro do município. Em reunião realizada no Auditório da Prefeitura, no fim da tarde desta terça-feira, dia 2, produtores rurais, poder público e profissionais da saúde animal e humana discutiram medidas de contenção da doença.


Durante o encontro, foram definidas metas e diretrizes para ação e controle nas propriedades, trabalhando, em paralelo, a informação aos produtores e exames no plantel. Todos os participantes convergiram para a necessidade e urgência na adoção de medidas sanitárias, evitando a extensão de possíveis danos para a produção leiteira do município. Quanto mais rápido se encontrarem os animais positivos, menor é o prejuízo da propriedade e mais rápido é solucionado o problema.


Segundo dados da Secretaria de Agricultura, ao menos 55 produtores rurais estão ligados à cadeia leiteira de Lauro Müller, onde por volta de 3 milhões de litros são produzidos mensalmente. O plantel é de, aproximadamente, 4 mil animais espalhados por propriedades em toda a zona rural do município.


De uma amostra com exames realizados em 50 propriedades na cidade, 14 delas apresentaram suspeita de brucelose. Com isso, a estimativa inicial aponta para que por volta de 22% do rebanho esteja contaminado. Para o secretário de Agricultura, Obras e Serviços Públicos, Acione Andrade Izidoro, o Serraninho, é preciso trabalhar junto ao produtor para evitar que a brucelose se torne um problema de saúde animal. “Temos uma economia forte na agricultura de nosso município, com a produção leiteira como um dos pilares dessa força. Vamos trabalhar, unindo forças e levando informações e assistência para os produtores rurais”, afirma o secretário.


Segundo a médica veterinária da Cidasc de Criciúma, Carla Zoche, a brucelose animal em bovinos de leite é grave e acaba levando à eliminação de animais. “A brucelose é uma doença muito difícil de controlar”, afirma. A profissional explica ainda que a brucelose precisa de acompanhamento nas propriedades, principalmente dos produtores, quanto a verificação da procedência do animal bem como no manejo, verificando anomalias no rebanho.


Portanto, uma das medidas levantadas na reunião faz referência à entrada de animais nas propriedades de Lauro Müller, vindos de outros municípios, somente com testes que comprovem o estado saudável dos bovinos. Hoje, alguns produtores acabam trazendo matrizes e reprodutores sem a devida fiscalização e varredura por exames clínicos, abrindo espaço para que enfermidades – como a brucelose – acabem se alastrando por todo o plantel de uma propriedade.


Conforme o gestor regional da Cidasc de Criciúma, Eduardo Damineli Pesenti, no momento em que o produtor adquire um animal e emitir a Guia de Trânsito Animal (GTA), ele deverá declarar a real finalidade do animal. “Se for para reprodução, deve ser feito, obrigatoriamente, o exame de brucelose e tuberculose. Para burlar isso, o que é uma prática ilegal, alguns produtores declaram que estão adquirindo o animal para engorda e abate, pois não tem essa obrigatoriedade. No entanto, ao comprar um animal contaminado e inserir em seu rebanho, ele corre o risco de estar levando um problema para sua propriedade. É aquela história de que o barato sai caro”, alertou.


De acordo como prefeito Valdir Fontanella, a responsabilidade na tomada de medidas e ações concretas contra a brucelose é tarefa para todos. “Vamos encarar essa doença. Faremos um trabalho forte para mantermos nosso rebanho saudável. Temos que tomar atitude e isso cabe a todos nós, tanto o poder público quanto os profissionais envolvidos e os produtores. Temos que unir nossas forças nesse momento. Só vivemos felizes quando somos saudáveis”, destacou Fontanella.



Situação é preocupante em toda a região


O gestor regional da Cidasc de Criciúma, Eduardo Damineli Pesenti, afirma que a situação de Lauro Müller não é diferente dos 27 municípios que compõem as regiões Amrec e Amesc, que são de responsabilidade da regional de Criciúma. “Foram coletadas amostras de leite em 665 propriedades de 27 municípios da Amrec e Amurel em outubro de 2018. O resultado saiu em 15 de março deste ano e apresentou 77 regentes a brucelose em 18 municípios. Ou seja, mais de 70% das cidades tem algum caso de brucelose. Essas amostras foram coletadas nas propriedades que entregam para laticínios que têm serviço de inspeção estadual ou federal. Nos laticínios com serviço de inspeção municipal, não foi feita a coleta”, detalhou.


Em maio e junho, novos exames foram realizados somente nas propriedades onde houve os regentes positivos. Segundo ele, haverá interdição automática nos locais onde houver resultado positivo novamente. “O fato de dar reagente ao leite não quer dizer que a vaca está com brucelose e nem que todos os animais da propriedade estão contaminados. A gente só pode afirmar que está infectada após o resultado do exame de sangue. Aí sim teremos os resultados oficiais. Até então, são suspeitas”, pontua.


A partir de então, é iniciado o processo de saneamento. “Se o animal estiver contaminado com brucelose, há dois destinos. Um é o abate na própria propriedade. Uma vala é feita com acompanhamento ambiental e enterra-se no local. Ou o produtor pode encaminhar para algum frigorífico da região que aceita animais infectados com brucelose para fazer o abate. Existem dois estabelecimentos habilitados da região”, disse. “Será realizado o exame do rebanho de corte, nos próprios frigoríficos, buscando realizar a triagem também no rebanho que não é leiteiro”, acrescentou.


Contaminação em animais e humanos


Os animais, tanto machos quanto fêmeas, contraem a doença quando comem ou lambem restos de placentas no pasto, visto que, quando a vaca sofre o aborto, a Brucella pode permanecer viva por cerca de seis meses no solo e pastagem. A transmissão também pode acontecer durante a monta natural, ou na inseminação com material ou sêmen contaminado.


O ser humano também pode contrair a brucelose, assim como os animais, quando entra em contato direto com os restos de aborto ou placenta. Além disso, o consumo de leite cru e derivados contaminados pela bactéria também podem acometer o homem. Durante a reunião, o professor Mario Arruda, da Unesc, apresentou os riscos e consequências da brucelose para os humanos. “Precisamos pensar na saúde dos animais, mas não podemos nos esquecer da saúde dos criadores, dos agricultores”, diz Arruda.


O professor apresentou, de forma didática, os problemas trazidos para os humanos contaminados pela bactéria da brucelose. Os principais sintomas da brucelose em humanos são similares aos da gripe, como febre, cansaço corporal, dor e enfraquecimento das articulações, calafrios, sudorese, fraqueza e dor de cabeça e no corpo em geral. “São sintomas muito parecidos com a da gripe, por isso, é importante que o agricultor saiba se há brucelose no rebanho”, conclui.


A infeção por brucelose humana durante a gravidez é rara, mas pode causar aborto, particularmente, durante o primeiro e o segundo trimestres. Sendo assim, mulheres devem receber tratamento médico imediato e as gestantes devem fazer o pré-natal adequadamente. Para a brucelose, não existe vacina efetiva. É por isso que, entre outras medidas, a prevenção da brucelose humana deve ocorrer com o controle ou eliminação da doença na população animal hospedeira.


05/07/2019  às 09hs31