22/12/2020  às 11hs44 - Atualizado em 22/12/2020  às 12hs53

Geral

Conto do Natal orleanense

Por Robson Lunardi (museólogo e apresentador do Café com a Guarujá, na Rádio Guarujá)


Foto: Divulgação

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Padre Afonso era vigário e sentia que a morte rondava sua casa naqueles dias. Nada falava, mas sabia que aquele seria seu último natal em Orleans… Na missa do galo, apurou o sermão, pulou alguma reza, desejou feliz natal e deu a bênção final, liberando os fiéis ansiosos para retornarem pra casa e desfrutar a ceia antes da meia-noite. No final da missa a sacristia lotou de gente para desejar votos de boas festas e entregar os presentes. Camisa, um par de sapatos, meias, um livro e outros mimos que se oferta a um homem de Deus.


No final, todos foram embora e o padre se viu sozinho. Inteiramente só na noite velha iluminada apenas com as velas do presépio montado na praça. A solidão bateu forte apertando o peito lhe deixando o coração miúdo. E se tivesse optado por casar? Não era melhor estar com a família? Agora, perdido na noite escura levava na mala de paramentos somente uma garrafa de vinho, um pão de rala e um frango assado que havia ganho dos paroquianos.


Ninguém teve generosidade de convidá-lo à ceia. A rua estava silenciosa naquele tempo que não existia energia elétrica… enxergava por orquestra de vaga-lumes que contornava – e alumiavam - os casarões. Visão celestial. Tilinha trazia os olhos inchados do choro copioso e sufocado. Chorava porque fora abandonada pelo marido e esquecida pelo filho que se envergonhava da mãe prostituta. Era condenada pela sociedade. Confusa, teve raiva de Deus e dos fregueses naquela noite de natal. Viu o padre e o padre enxergou-a. Caminharam em silêncio, rumo à casa paroquial.



Quando conversaram o padre adiantou que não a trouxera ali para sexo. Precisava de alguém para compartir a ceia. Rezaram. Tilinha sentou na cama, e desabou chorando de alívio, um choro amoroso, quase de alegria. Confessou-se. Conversaram dos natais antigos, do presépio que aquela gente humilde armava no cantinho da casa, do galo que engordavam na caponara, das bolachas decoradas que a mãe fazia e guardava numa lata para a ocasião, das orações que faziam em família no interior. Abriu o Evangelho e leu pausadamente o relato do nascimento de Jesus na estrebaria, e do enfrentamento que depois veio a ter com os fariseus defendendo a prostituta.


Explicou que Madalena estava na última ceia ao lado dos apóstolos. Após a comunhão pegou os copos, encheu de vinho, partiu o frango e repartiu o pão. O dia clareava e enquanto padre e prostituta conversavam sobre suas vidas e das coisas boas dos tempos da roça. Um tempo depois padre Afonso recebeu um tiro no peito no trem de ferro quando retornava do Tubarão, ali pela Pindotiba. Uma medalha de São Miguel que usava, milagrosamente salvou da bala mortal, aquele homem de Deus. Em seu diário foi encontrado depois, que naquela semana depois da ceia de natal, a prostituta o procurou ofertando a medalha do São Miguel, pedindo ajoelhada (fazendo o padre jurar) que nunca mais o padre deixaria de usar aquele presente…


22/12/2020  às 11hs44