12/04/2019  às 17hs14 - Atualizado em 12/04/2019  às 17hs25

Geral

Moderação é a palavra-chave para uso de celulares e tablets para crianças

Psicóloga clínica Vanessa Alexandre Tezza detalha as maneiras de encontrar um equilíbrio para o uso da tecnologia por crianças.


Foto: iStock/Arte Lunetas

Foto: iStock/Arte Lunetas


A psicóloga clínica Vanessa Alexandre Tezza é a profissional desta semana convidada pela redação do Notícias JH* para falar de um assunto de sua especialidade. Ela cita os benefícios e os malefícios do uso de aparelhos eletrônicos, como celulares e tablets, para as crianças. Além disso, dá dicas de como os responsáveis podem encontrar o equilíbrio para o uso sadio das tecnologias. Confira:


1 - Quais as vantagens e desvantagens do uso dos aparelhos eletrônicos na infância e adolescência?


Compreendemos que a tecnologia tem suas vantagens e desvantagens, temos acesso a informações rapidamente, as crianças e adolescentes conseguem ter acesso a uma diversidade de livros e atividades educativas online, facilidades de comunicação, desenvolvimento intelectual e habilidades com ferramentas tecnológicas. Nos conectamos com o mundo sem sair de nossas casas. Porém, precisamos estar atentos ao uso indevido dessas ferramentas. Isso vai depender do direcionamento que o adulto propões a uma criança.


O uso de aparelhos eletrônicos não é indicado até os 2 anos da primeira infância, para Liubiana Arantes, presidente do Departamento de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da SBP, esse uso limita-se também durante as duas horas que antecedem o sono e durante as refeições. Há poucas vantagens no uso de aparelhos eletrônicos para as crianças até os 7 anos de idade, os riscos são maiores do que as vantagens educacionais. A experiência diante de uma tela não tem nada enriquecedor para os pequenos. As telas não trazem os mesmos benefícios de experiências motoras e sensórias como as sentidas vivencialmente com as atividades diárias de tato e contato físico, as crianças aprendem muito mais se relacionando com pessoas do que com as telas de aparelhos eletrônicos.


Até os três anos de idade, o cérebro vai atingir 87% do tamanho que terá no futuro, mais de 50% das energias do corpo são destinadas ao desenvolvimento neurológico. Por isso há grandes chances dessa criança desenvolver atraso na linguagem, assim como dificuldade de relacionamento social, suas emoções podem ficar comprometidas, com aumento da ansiedade, irritabilidade e agressividade das crianças. A longo prazo, podem ocorrer também problemas físicos como dores musculares e obesidade, já que ao invés de correr, pular e se movimentar, a criança fica um bom tempo em uma mesma posição, sem nenhum tipo de atividade física.


Já para os adolescentes, a dependência a internet está mais ligada aos games e redes sociais. O uso patológico dos videogames já é mencionado na quinta edição do Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais. A “dependência de internet” está a um passo de se tornar a mais nova classificação psiquiátrica do século 21. Em alguns países, já se tornou problema de saúde pública, com a abertura de 150 centros de tratamento para dependentes de games.


2 - Por quanto tempo ao dia é indicado que os pais permitam o uso?


Para as crianças entre dois e cinco anos, o ideal é que passem, no máximo, duas horas diárias com TV ou aparelhos eletrônicos, isso porque crianças precisam de um tempo livre para brincadeiras, espaço para inventar, criar e usar sua imaginação. Esse espaço tem sido ocupado por todos esses eletrônicos, sem permitir que as crianças vivenciem de fato todo esse imaginar que permeia a infância.  Os adolescentes têm substituído os computadores pelos smartphones na realização de pesquisas escolares.


Embora exista um crescimento no consumo de notícias, a maior parte das atividades de navegação na internet por eles está relacionada à comunicação e oito em cada dez crianças e jovens dizem que enviam mensagens instantâneas quando conectados à Internet, 77% afirmam assistir a vídeos online, 75% ouvem músicas e 73% navegam em redes sociais. Para essa fase, fica mais ilimitado o uso, tendo em vista que a utilização desses aparelhos está diretamente envolvida a outras questões que não somente a de jogos e vídeos, como na primeira infância.


Vale ressaltar que nenhuma atividade quando em excesso é saudável, ela precisa ser ajustada conforme a necessidade de cada adolescente, não tornando uma atividade patológica e que venha influenciar no seu desenvolvimento emocional e cognitivo.


3 - Existe uma idade ideal para dar um celular a uma criança?


Não existe uma idade ideal para dar um celular para uma criança, pois precisa ser avaliada a necessidade de cada criança. Sabemos que o smartphone hoje é utilizado por questões de segurança e de comunicação, cabe aos pais avaliar a necessidade de dar ou não um aparelho celular para seus filhos. Um indicativo é quando ela tiver maior responsabilidade e demonstrar maturidade e uma vida social mais intensa. Uma idade que geralmente as crianças começam a apresentar a necessidade de ter o aparelho é por volta dos 9 e 10 anos de idade. No campo do ensino-aprendizagem da criança, ela se torna uma ferramenta indispensável. Antes disso, elas precisam ser monitoradas através do uso dos aparelhos dos adultos. 


4 - De que maneira os pais podem estabelecer limites ao uso de tecnologias?


Através dos combinados e de regras que precisam ser estabelecidas pelos cuidadores e responsáveis. Sabe-se que a utilização dos aparelhos eletrônicos não pode substituir as atividades ao ar livre, brincadeiras, momentos familiares e sociais. Existem prioridades em cada fase da vida. Na infância e adolescência, a maior prioridade é o desenvolvimento cognitivo e comportamental, através das experiências vividas e de sua educação. As crianças são naturalmente espontâneas, criativas. No entanto, essa forte característica parece estar sendo corrompida pelas facilidades que as tecnologias propõem e, aliado à falta de mediação entre essas relações, faz-se necessário que exista um limite estabelecido ao uso destas tecnologias. Estamos diante adultos em miniaturas e “nativos digitais”.


5 - Existem estratégicas que os pais podem adotar para criar uma rotina para que os filhos conciliem uso das tecnologias com demais obrigações?


Sim, existe inúmeras estratégias. Desenvolver com eles um planejamento do seu tempo diário com uma diversidade de tarefas em horários definidos e que sejam cumpridos com periodicidade e responsabilidade. Monitorar este uso é essencial para a segurança dessas crianças e adolescentes. Essas estratégias, se bem formuladas e executadas na infância e adolescência, podem desenvolver competências na fase adulta. Entre elas, responsabilidade, organização e planejamento. Os pais podem contar também com o apoio de profissionais especializados para auxiliarem neste processo, tais como psicólogos, psicopedagogos e pedagogos.


Colaboração: psicóloga clínica Vanessa Alexandre Tezza (CRP 12/14600) - (48) 99809-2340.


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