04/12/2017  às 10hs17 - Atualizado em 04/12/2017  às 10hs33

Economia

Morro Grande sofre com a demissão de um sexto de sua população


Foto: Diorgenes Pandini/Diário Catarinense

Foto: Diorgenes Pandini/Diário Catarinense

Na segunda-feira, a baiana Cintia dos Santos Caldas Sampaio, 34 anos, mostrava o que restou dos 10 anos de trabalho no frigorífico Tramonto, administrado pela JBS desde 2013. Além da camisa que vestia com a mensagem “seu sorriso é nosso prêmio, sua segurança é uma de nossas metas”, exibia duas canecas e um copo com a logomarca da empresa. Há um mês, ela perdeu o emprego e o salário de R$ 1,3 mil. O mesmo aconteceu com o marido, Ronei, 40, o irmão Sidney, 38, e o padrinho de um dos dois filhos do casal, Roberto de Jesus, 36. Sem contar dois primos e três amigos que também vieram da Bahia.

Histórias como a da família de Feira de Santana (BA) se tornaram comum em Morro Grande, no Sul do Estado, após a multinacional brasileira encerrar o abate de frango e demitir um sexto da população do município, cerca de 600 pessoas. Quem não está desempregado, tem familiares ou amigos nesta situação.

— A gente espera que venha outra empresa. Tivemos nossos filhos e fizemos muitos amigos aqui. Se for para sair da cidade, prefiro voltar para a minha terra natal – diz Cintia.

Hoje, o casal vive com uma renda de R$ 2 mil por mês do seguro-desemprego – calculado a partir da média dos últimos três salários – para sustentar o bebê de nove meses e a criança de oito anos. Como os financiamentos da residência de três quartos e do automóvel da família consomem metade do dinheiro, pensam em usar o fundo de garantia (FGTS) para quitar parte das dívidas. Depois de março, quando acaba o benefício, o futuro é incerto.

Até julho, os 2,9 mil habitantes do município não tinham motivos para se preocupar. Segundo ranking do IBGE com dados de 2015, 61,3% da população estava ocupada naquele ano, o quarto melhor resultado de Santa Catarina e o 35o entre as 5,5 mil cidades do país. O PIB per capita era de R$ 52.471 em 2014, o 13o maior do Estado. Hoje, todas as ruas da região central são pavimentadas e a sede da prefeitura, recém-inaugurada, causa inveja em prédios de cidades maiores. Provas de um período de bonança nas contas públicas.

Mas os ânimos começaram a mudar em agosto, com o anúncio do encerramento das atividades do frigorífico. Não se falava em outra coisa. Até 26 de outubro, havia morrograndense que ainda tinha esperança de uma reviravolta no caso.

– Temos que pensar positivo. Espero que a JBS entenda o momento da cidade, a nossa realidade. Acredito que, daqui a 30 dias, a gente possa ter informações positivas, uma alternativa – disse o prefeito Valdionir Rocha (PSD) em 5 de outubro.

De lá para cá, o cenário não mudou. Valdo, como é conhecido, continua sem uma solução fácil. Já entrou na Justiça para que a empresa devolvesse a planta ao município ou desistisse da ideia de demitir os funcionários, se reuniu com políticos na Capital e empresas do ramo. Sem sucesso.

Também presidente da Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (Amesc), ele estima que o fechamento da indústria vai gerar um efeito dominó, resultando em uma queda na arrecadação de R$ 650 milhões nas cidades da região. Entram nesta conta, por exemplo, a redução do faturamento e a falência de empresas de cidades vizinhas que prestam serviço para a planta, principalmente as transportadoras, e os comércios. 

Somente o ICMS, responsável por grande parte do caixa de Morro Grande, cairá pela metade, segundo estimativas da prefeitura. O valor arrecadado com o imposto sobre circulação de mercadorias e serviço era usado para pagar metade da folha  (R$ 250 mil) dos servidores.

— Funciona como uma engrenagem. Hoje, o comércio, por exemplo, sobrevive por conta das pessoas que trabalham no frigorífico. Um emprego direto significa seis indiretos. Tirando um, a gente acaba perdendo sete trabalhadores. Vivemos em torno da JBS, 80% dos nossos impostos vêm da planta. Somente na cidade são em torno de 2 mil pessoas, pouco mais de 60%, atingidas diretamente — diz.

Como o município só receberá o ICMS arrecadado neste ano em 2019, o impacto mais forte nas contas será em 2020, último ano do mandato de Valdo. Até lá, ele vai perder outras noites de sono.

Praticamente vai ser decretada a falência do município, diz prefeito

Desde outubro, o prefeito de 57 anos se reúne com o secretariado para planejar os cortes no orçamento. As áreas de educação e saúde vão ser priorizadas, mas outras sofreram bastante. Se o efeito da arrecadação fosse imediato, por exemplo, metade dos servidores teriam que ser pagos com uma outra fonte ou exonerados.

— Não quero nem pensar no que vai acontecer. Praticamente vai ser decretada a falência da cidade. Eu venho batendo em todas as portas, mas está difícil. Dizem que ninguém quer se meter com a JBS neste momento — afirma.

 Em acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o sindicato da categoria, a empresa pagou indenização de R$ 1,25 mil para cada funcionário com mais de um ano de casa. Para quem tinha menos tempo, o valor foi dividido conforme os meses trabalhados. O promotor do Trabalho, Sandro Sardá, explica que o órgão atuou para que os direitos dos trabalhadores fossem respeitados, mas que o fechamento não compete à promotoria.

Questionada sobre o encerramento das atividades, em nota a JBS se limitou a dizer que a unidade de Morro Grande continua produzindo rações e outros itens agropecuários – são pouco mais de 50 funcionários. 

 “A decisão de encerrar o abate foi tomada em função da otimização e racionalização da malha produtiva da companhia. A produção da cidade foi absorvida, prioritariamente, pelas plantas vizinhas e por outras fábricas que a empresa mantém no Estado. A JBS está aberta a negociações para venda da unidade, o que está nos planos desde que decidiu pelo encerramento das atividades de abate”, diz o texto.

Produtores sofrem com aviários vazios

— Sofri por sete anos com financiamentos. O que mais dói é saber que investi e agora sou cortado sem motivos. 

A frase de Valtoni Dandolini, 48, mostra o problema de grande parte dos avicultores da região: as dívidas com os bancos. Ele foi um dos dispensados pela empresa em outubro. Hoje, os três aviários que alojavam cerca de 80 mil frangos, média de 120 mil quilos por mês, estão vazios.

O investimento de pelo menos R$ 1,5 milhão rendia em média R$ 5 mil por mês para a família do produtor e mantinha dois postos de trabalho. Por enquanto, ele não dispensou os empregados. Ajuda como pode. Dá moradia e indica para bicos nas propriedades vizinhas. A esposa e os dois filhos foram trabalhar na cidade para incrementar a renda.

— Apelei ao técnico para que (a JBS) voltasse atrás, mas não é fácil. Agora quem vai querer comprar isso? Dá um desânimo passar em frente aos galpões e ver tudo abandonado — diz.

Hoje, a região Sul conta com 780 avicultores que abastecem os frigoríficos da JBS de Nova Veneza e Forquilhinha, responsáveis por 300 mil abates diariamente. A planta de Morro Grande chegou a abater 100 mil aves, mas nos últimos meses não passava de 55 mil. 

O presidente da Associação dos Avicultores do Sul Catarinense, Emir Tezza, explica que dificilmente alguém compra um galpão de aviário, principalmente quando um frigorífico encerra as atividades na região. O que dá para vender são parte dos equipamentos, como fornalha e bebedouros. O restante fica na propriedade do produtor esperando que alguma companhia volte a alojar as aves no local. No caso de Valtoni, como a JBS é a única no Sul, não há mais para quem vender. Tezza acredita que pelo menos 100 trabalhadores já foram desligados:

 — O funcionário dentro da fábrica tem vários direitos, como multa contratual, FGTS e décimo terceiro salário. O produtor, quando é descartado, só recebe o dinheiro de um lote a mais. E as dívidas contraídas no banco? Mais de 90% dos avicultores estão devendo. Como eles vão pagar?

O problema de Morro Grande não é exclusividade de Santa Catarina. Pode até ser o caso mais emblemático do país pela quantidade de pessoas demitidas em uma única cidade, mas é comum em outras regiões, segundo o economista Istvan Kasznar, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A primeira saída para evitar o colapso, aponta, é encontrar uma companhia para fechar o espaço vazio na economia.

— Tem de ser cuidadoso, buscar apoio e encontrar uma substituição que permita a reprogramação do projeto da cidade. Se não chegar a um acordo para continuar a vocação, ela vai morrer. (A saída) é tão violenta que é política de terra arrasada — afirma.

Ele acrescenta que de médio a longo prazo é preciso investir no cooperativismo para ter preços mais competitivos e reduzir os custos. A cooperativa Aurora foi uma das procuradas pela prefeitura para se instalar na região. Por meio da assessoria de imprensa, a companhia do Oeste do Estado afirma que, neste momento, “não tem nenhum plano de aquisição”.

 

Com informações do Jornal Diário Catarinense


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