01/05/2020  às 08hs00 - Atualizado em 01/05/2020  às 08hs24

Saúde

No Dia do Trabalhador, uma homenagem aos profissionais da saúde

O Notícias JH entrevistou um profissional da saúde que atua na linha de frente do combate ao coronavírus em Orleans para falar sobre os desafios da profissão em tempos de pandemia.


No Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira, dia 1º, em meio a uma pandemia, destaque especial aos profissionais da saúde - Foto: Freepik

No Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira, dia 1º, em meio a uma pandemia, destaque especial aos profissionais da saúde - Foto: Freepik


No feriado desta sexta-feira, 1º de maio, dia em que se comemora o Dia do Trabalhador, milhares de profissionais da saúde trabalham arduamente para salvar vidas e amenizar as dores sofridas por seus pacientes. Em tempos de pandemia, estes trabalhadores têm recebido um reconhecimento ainda maior por parte de toda a população.


Assim como ocorreu com toda a população, suas rotinas mudaram e eles convivem com o medo, tanto de se infectar quanto de perder um ente querido e entre outros motivos. Além disso, presenciam diariamente situações difíceis e dolorosas e estão mais vulneráveis ao contágio, já que lidam diretamente com pessoas infectadas com o coronavírus. Tudo isso gera um peso a mais.


O Dia do Trabalhador é uma data para celebrar, mas serve também para refletir. Tendo isso em vista, o Notícias JH entrevistou um profissional que atua na linha de frente do combate ao coronavírus em Orleans para falar sobre os desafios de suas profissiões neste momento de pandemia. O médico Márcio José Correia da Silva Lopes atua no setor de urgência e emergência da Fundação Hospitalar Santa Otília, em Orleans, e do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Urussanga. Além disso, é médico de urgências e emergências e diretor técnico e clínico do Hospital São Marcos, em Nova Veneza.


Notícias JH - Como profissional que ficou na linha de frente do combate ao coronavírus, como você avalia a situação atual? Em sua carreira, já passou por algo parecido?


Dr. Márcio - No momento, a situação é de preocupação. À medida que estão sendo realizados mais testes, o número de casos confirmados vem aumentando significativamente. Para compreender a dimensão, podemos analisar o município de Orleans, que há pouco mais de uma semana tinha dois casos confirmados e agora já são 14. Ou seja, um aumento bem significativo. Estamos no início do pico epidemiológico, a tendência é que esse número de casos aumente ainda mais por um período até que a curva de transmissão comece a descer. Para piorar a situação, as medidas de segurança que foram orientadas à população para volta do comércio e demais serviços não estão sendo bem executadas, o que agrava ainda mais. Nos meus oito anos em que exerço a medicina, nunca vivi algo parecido. Presenciei como estudante o surto de H1N1 em 2009, mas não fazia parte da linha de frente. Vi como era, mas não tive a real dimensão que tenho hoje.


Notícias JH - Qual a maior dificuldade encontrada neste momento para o exercício da profissão?


Dr. Márcio - A maior dificuldade hoje é a falta de compreensão e principalmente colaboração das pessoas (pacientes). Muitos relevam as orientações, tomam atitudes por conta própria, se automedicam, usam receitas de parentes, amigos, vizinhos e etc.. Hoje temos uma influência muito grande da internet, sabemos que existem muitas postagens falsas, errôneas, equivocadas e mentirosas, mas, mesmo assim, infelizmente, uma grande parte das pessoas faz "consultas no Google". Muitos já chegam no consultório com diagnósticos e tratamentos, solicitando que nós profissionais da saúde façamos o que eles "solicitam" e, em algumas situações, é difícil explicar e convencer que a conduta é errada e que, ao invés de ajudar, pode prejudica-lo.


Notícias JH - Na prática, de que forma a tua rotina mudou após a pandemia?


Dr. Márcio - A rotina mudou bruscamente, não só a maneira de atender os pacientes, mas também a forma como nos portamos como seres humanos, como pessoas. Acho que essa pandemia vai nos ensinar muito, se não nos tornarmos pessoas melhores depois disso, não sei como vai ficar. É difícil ver colegas de trabalho, médicos, enfermeiros e técnicos, sendo contaminados, ver pessoas morrendo e, mesmo assim, uma boa parte da população parece que não está nem aí. Parece que não se importam com o próximo. O problema maior não e só se contaminar, é também contaminar outras pessoasma pessoa jovem provavelmente vai passar pela infecção com sintomas leves, mas se ela contaminar um idoso ou um paciente portador de doença crônica, essa pessoa pode vir a óbito. Então acho que deveríamos ver um pouco mais nossos conceitos de seres humanos. Por outro lado, presenciei o carinho de muitos pacientes, nos apoiando e de certa forma até nos cuidando, com mensagens dizendo que estavam orando por nós, para que Deus nos protegesse. Realmente, mudou muita coisa.


Notícias JH - Mais do que nunca, os profissionais da área da saúde têm recebido o reconhecimento por parte da população. Como você se sente em relação a este acolhimento?


Dr. Márcio - Sim, em algum momento, nós profissionais da saúde estamos sendo reconhecidos por muitas pessoas nessa pandemia. Como disse na resposta anterior, muita coisa mudou. Infelizmente, hoje isso já não é mais a nossa realidade total. Em muitos casos, somos desvalorizados, tratados por diversos adjetivos. A internet e os maus profissionais contribuíram para que houvesse um distanciamento e deterioramento da relação médico-paciente. Infelizmente, aumentou consideravelmente o número de agressões a profissionais de saúde, principalmente em âmbitos hospitalares, como pacientes e acompanhantes inconformados, em algumas vezes, com a demora nos atendimentos, que não é culpa dos médicos e enfermeiros, na grande maioria dos casos, pois o número de profissionais não é suficiente pra atender as demandas diárias, mas, por estarem ali "dando a cara", acabam sofrendo as agressões e xingamentos, mas os reais responsáveis pelo funcionamento das unidades sequer são mencionados. Então é uma situação bem delicada que, infelizmente, vem aumentando no nosso país. E vendo agora o reconhecimento de muitas pessoas no momento em que vinha aumentando essa defasagem da relação médico-paciente é bem gratificante, serve como combustível, ânimo para seguir exercendo a medicina com amor e dedicação, principalmente ao próximo. Espero que, quando essa pandemia acabar, continue esse sentimento, que as pessoas vejam no médico um amigo que procura quando precisa de ajuda e que o respeito mútuo permaneça.


Notícias JH - Estar mais vulnerável neste momento - devido a ter mais chances de contato com pessoas infectadas e pelas situações dolorosas que possa presenciar - é um peso a mais que os profissionais da saúde carregam comparados ao restante da população, que também tem sofrido com as inúmeras consequências da pandemia. Como você tem lidado com isso, principalmente no que diz respeito à saúde mental?


Dr. Márcio – É uma pergunta bem complexa. Realmente estamos bem mais vulneráveis e expostos ao vírus e, justamente por presenciar as consequências que ele pode causar, não nos deixa com medo, mas nos faz ficar mais receosos. Atrás do médico, tem um esposo, um pai de família, tenho duas crianças pequenas, uma menina de dois anos e nove meses e um menino de seis meses de idade. Então o meu medo maior é levar esse vírus para dentro de casa, contaminar meus filhos, minha mãe que tem 52 anos, mas é portadora de doença crônica, meu padrasto que e diabético, então é bem complicado. É muito difícil chegar em casa como fazia todos os dias, ver minha filha me esperando na porta para dar um abraço e não poder abraça-la naquele momento. Ela muito é pequena e as vezes não entende, questiona, pergunta o motivo, e são nessas horas que doí, que vemos o quanto algo tão pequeno como um vírus interfere não só na saúde, mas também na relação familiar e interpessoal. Lá em casa é ainda mais complicado, pois minha esposa também é médica, então fica bem difícil para os dois chegar e não poder abraçar os filhos na porta como fazíamos antes. O que tenho feito para cuidar da saúde mental é me apegar à minha religião, pedir a Deus que nos proteja, que nos cuide e que, principalmente, cuide dos nossos entes queridos, não permitindo que através de nós essa doença chegue até eles. E, claro, também pedidos para que isso passe logo e possamos voltar à nossa vida "normal".


Notícias JH - Qual o seu sentimento em relação à profissão que escolheu para atuar?


Dr. Márcio - Eu escolhi essa profissão motivado pelo desejo de ajudar o próximo. Quando ainda muito pequeno eu via os documentários dos Médicos Sem Fronteiras que fazem missões de saúde nos países e cidades mais carentes do mundo. Via ali crianças desnutridas, morrendo de fome e sede, acompanhava o que faziam nas epidemias e pandemias, realmente um trabalho humanitário incrível que me fascina até hoje e é algo que ainda quero fazer, que é trabalhar voluntariamente nesses programas para poder levar ajuda a quem tanto precisa. Sempre falava para minha mãe que um dia eu iria fazer isso. Dei o primeiro passo que foi me formar em medicina, fui para uma país estrangeiro, passei dificuldades com o idioma, clima, cultura e dentre outros fatores, mas me formei. Isso até me fortaleceu, eu creio. Agora espero conseguir realizar o sonho e desejo de atuar em algum desses projetos. Eu vejo a medicina como um serviço humanitário, como servir o próximo, cuidar daquilo que o ser humano tem de mais precioso que Deus nos deu, que é a vida.


Redação Notícias JH


01/05/2020  às 08hs00